O Lento Alento, por Renato Essenfelder

O Lento Alento, por Renato Essenfelder

Distraídos venceremos

Vivemos todos em guerra contra a distração, uma guerra travada em nome do deus da produtividade, mas ela também pode nos libertar

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Renato Essenfelder
jul 20, 2026
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Frequentemente vou ao café (ou bar, dependendo da hora) para terminar fora de casa aquilo em que não conseguia avançar, dentro. Invariavelmente, algo relacionado à palavra: ler; escrever. Essas coisas que, antigamente, a gente dizia que eram da essência do humano, o ser falante.

Nesta semana mesmo eu estava com tremenda dificuldade para ler um livro. Tentei de tudo. Café, rede, diferentes graus de luminosidade. Depois poltrona, depois cama (deu sono, apesar do café), mais café, até eventualmente lembrar de ter lido que o Ernest Hemingway escrevia de pé, com a máquina de escrever sobre uma prateleira, e tentar algo próximo a isso também — ler em círculos, perambulando pela casa.

Um café invernal e livros, em algum lugar de Paris

Nada resultou. Não era ela, a obra, era eu, o leitor. Tratava-se de um excelente livro, sem dúvida alguma, muito digno, honestíssimo, um tipo (digo, tipografia) irrepreensível. No entanto, eu empacara.

Pensei que me distraía facilmente, enquanto o telefone se materializava na minha mão sem qualquer gesto meu. Se eu não conseguia evitar de me distrair, precisava distrair as distrações.

Saí para ler no café e de repente a coisa toda engrenou lindamente. Li, fiz anotações, fiz conexões entre novas e velhas leituras, ideias, experiências da minha própria vida. Quanto mais o café tilintava e rangia e apitava como uma velha locomotiva, mais zen eu ficava. Era a minha meditação.

Tinha razão o poeta: distraídos venceremos.

O poeta Paulo Leminski

É esse o título de um livro do poeta Paulo Leminski que li há muito tempo, e que volto a folhear agora, enquanto interrompo este texto sem que o leitor perceba.

Eu gosto quando a distração oferece um respiro. Abençoada seja.

Vivemos todos em guerra contra a distração, uma guerra travada em nome do deus da produtividade, onde impacientemente imolamos nossas virgens (esperanças). Então gosto duplamente quando ela se impõe, vencedora de mais um round, e generosamente oferece uma nova perspectiva.

Este texto, por exemplo, era sobre o que a gente vê quando olha para outra pessoa, mas o que eu vi foi um livro do Leminski.


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