Adeus, Canelinha
Tivemos de nos despedir da nossa cachorrinha nesta semana; ela era um pequeno mundo de constância e doçura, de humor e resignação. Nunca pensei no que ela estaria pensando. Era desnecessário.
Anos atrás, quando eu ainda morava em São Paulo e só voltava para casa depois de 12 ou 13 horas fora — preso no trânsito, preso em reuniões, preso em conversações rasteiras —, era ela que me recebia ao fim do dia, com uma alegria quase ridícula, de tão desproporcional. Uma alegria que transbordava do seu corpinho roliço e se espalhava pela sala como um bálsamo.
No trajeto de volta para casa, se eu me atrasasse por alguma eventualidade, meia hora que fosse, sentia-me péssimo. Martirizava-me numa longa e lenta procissão por avenidas congestionadas, culpando-me por deixar a casa vazia por tanto tempo.
Vazia, não. A casa sem corpo humano, sem companhia para aquela que era minha maior companheira. Esbaforido e mal humorado, chegava em casa com a consciência pesada; criminoso. Queria recompensá-la a qualquer custo, ainda que soubesse que o vazio da ausência não era compensável.
Mas o mal-estar durava pouco tempo. Desaparecia tão logo eu abria a porta e a encontrava com o rabinho de porco abanando loucamente, girando em torno do próprio eixo, constelando ao meu redor, numa euforia confusa, às vezes ensaiando um latido solitário, esfregando o rosto contra minha perna, prestes a explodir de tanto contentamento.
Eu não sei bem como, mas ela sempre antecipava a minha chegada. Quer dizer, pugs não são famosos por seus aguçados instintos animais. Longe disso, ela era toda atrapalhada.
Ainda assim, sabia.
Estava pronta para me recepcionar, à porta, noite após noite.
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Ela chegou em casa com apenas 45 dias de vida, em 2011.
Minha filha tinha oito anos de idade. Cresceram juntas.
O nome completo é Princesa Botas de Canela, e não perguntemos de onde a cabeça de uma criança tira suas ideias fantásticas — convém preservar algum mistério, para que o mistério se afeiçoe a nós.
No início, Canela era apenas cabeça. Uma grande cabeça desproporcional ao resto do corpo, abrigando olhos também exagerados, redondos, saltados e tortos.
Cabeça e barriga: uma pancinha perfeitamente esférica, sólida e insaciável.
Suas formas arredondadas, a carinha simpática e vesga, a curiosidade sem fim e a demanda permanente por colo já davam, então, pistas do que ela iria se tornar: um cachorro amoroso, folgado e barulhento.
O corpo atarracado, compacto, parecia feito para o conforto: ela era toda voltas, dobras, curvas: um bicho sinuoso. Um amontoado de carinho pedindo para se manifestar a qualquer hora do dia. O adorável focinho achatado, herança de um capricho de seleção genética (que passei a condenar com veemência), fazia dela uma permanente contradição entre o exuberante vigor animal e a tremenda fragilidade de um corpinho inadequado.
O pelo curto, de um bege amendoado que se foi tornando cada vez mais claro com a idade, tinha a curiosa capacidade de cair em um volume incalculável ao mesmo tempo que nunca, jamais perdesse volume. Era como um desses sacos mágicos de contos de fada, dos quais é possível tirar todo o universo sem nunca esvaziá-lo.
Canela tinha um problema de pele, segundo o veterinário, que fazia com que o pelo dela caísse muito facilmente: bastava puxar suavemente entre os dedos para arrancar tufos. (Problemas de pele, pelo, dentes, focinho, garganta, traqueia, digestão, coração, coceiras e alergias. Era um saco de problemas de todo tipo, mas, ao mesmo tempo, perfeição.)
O brilho quase dourado da pelagem, sob a luz do fim do dia, junto com o contorno dos olhos esbugalhados e das orelhas curtas e moles dava-lhe um ar de velha senhora aristocrata. Uma duquesa cansada, mas de humor impecável. Os pugs nascem velhos, definitivamente. Mas digo isso na melhor acepção da palavra. Se todos nascêssemos velhos como pugs, o mundo seria muito melhor. Não é uma velhice rabugenta (bem, às vezes é sim). É mais uma velhice sábia, que escolhe suas batalhas: comida, colo, voltinhas pelo bairro. Todo o amor que houver nesta vida.
Nasceu já cheia de rugas e dobrinhas na testa, sempre emaranhadas e expressivas, que davam-lhe um ar muito curioso. Quando desconfiada, franzia-as com leve dignidade; quando pedinte, arregalava os olhos de jabuticaba e deixava o queixo pender sobre o peito, rendida ao papel de mendiga irresistível.
Uma velha aristocrata falida, que dependia da bondade de estranhos, mas, ao mesmo tempo, cheia de dignidade.
Mais digna do que muita gente que vim a conhecer, a Princesa Botas de Canela. Até quando implorava por um naco do churrasco de domingo, era altiva. Com ela — mesmo velha, cansada, faminta, barulhenta, inapropriada e até malcheirosa — aprendi muito sobre a substância da dignidade. Mesmo em situações de penúria total.
Mesmo à beira da morte.
Sua carinha doce, entre uma pintura bizarra da dinastia Ming e um sonho sublime, conquistava até os mais insensíveis. Esses dias, recorri a um livrinho do Thomas Mann, o grande escritor alemão: Homem e Cão. Trata-se de um relato da sua vida ao lado do perdigueiro Bashan. Tive certeza de que Mann se apaixonaria pela Canela (digo isso de todas as pessoas sensíveis, é verdade). Talvez até a achasse bela: dona de uma beleza que não pede permissão de ser, que não se preocupa com padrões, porque nasce da ternura e da aceitação plena de si, com todas as suas numerosas restrições.
Canela, assim como Bashan, tinha o hábito de dar o bote. Escutava a gente conversando e, de repente, saltava em direção à minha boca, ou da minha filha, da minha mãe, num gesto ao mesmo tempo amoroso e impaciente. De um amor incontido, represado (sempre) por tempo demais.
…subitamente levanta a cabeça, abre e fecha a boca muito depressa, e abocanha-me a cara, como se me quisesse morder o nariz. É um movimento de resposta às minhas observações, que me faz recuar sempre com uma gargalhada, coisa que o Bashan já sabe de antemão… Imediatamente me pede perdão da liberalidade, agachando-se, agitando o rabo e mostrando-se embaraçado de maneira engraçada.
Thomas Mann. Homem e Cão (1919).
Era especialmente engraçado ver Canela dando o bote. Quer dizer, ela não era nenhum perdigueiro — Mann e Bashan, por exemplo, formavam uma diligente dupla de caça. Canela, no máximo, caçava colinhos. Não podia ver alguém da família sentado calmamente no sofá que já ia correndo bater as patinhas nas nossas pernas, pidona.
Suas patinhas curtas batiam no chão com uma cadência particular, um tec tec tec que ecoava pela casa e que por incontáveis manhãs ao longo de quase quinze anos me despertou, às vezes irritado, às vezes entretido, mentalmente desenhando o mapa das suas voltinhas pela casa. Quando caminhava, balançava as ancas redondas com uma altivez quase cômica.
E o ronco, a trilha sonora do lar! A respiração ritmada, audível a cômodos de distância, era o lembrete constante de que aquela era a casa de um legítimo pugsauro. Às vezes parecia uma chaleira fervente, às vezes um motorzinho satisfeito, zumbindo baixo no meio da noite, às vezes uma perseguição frenética entre tratores agrícolas, que até assustava as visitas. Paradoxalmente, contudo, para quem estava acostumado com o ronquinho, ele era a coisa mais tranquilizadora do mundo. Um ruído de fundo alegre e sereno, um mapa para uma vida bem vivida.
Um dia quero comer assim, brincar assim, dormir assim como a Canela, eu pensava, olhando a bolinha de pelo espalhada sem nenhuma graciosidade sobre a cama.
Nos dias frios, quando se enroscava num cobertor e desaparecia sob ele, restava à vista apenas o contorno de uma bolha morna respirando o tempo. Ali repousava o amor. Amor de verdade: simples, direto, fiel.
Canela não fingia, não escondia, não interpretava. Um cão é sempre o que é. Essa simplicidade me comovia, já que a gente está constantemente deixando de ser.
Quando me olhava, não havia julgamento nem expectativa. Apenas um reconhecimento mudo, uma aceitação plena.
Canela era um pequeno mundo de constância e doçura, de humor e resignação. Nunca me peguei pensando no que ela estaria pensando. Era desnecessário: o olhar bastava. E naquele olhar, largo e úmido, cabia tudo o que a gente precisa pra ser feliz. Presença, amizade, verdade, lealdade, cuidado, carinho, amor.
Canela era viajada. Nasceu em São Paulo, onde viveu conosco por uns oito anos. Depois, quando eu vim para Portugal, passou quase dois anos com a minha irmã e a minha mãe, em Curitiba, onde sem esforço conseguiu conquistar o restante da família — mesmo quem não era muito fã de cachorro, terminava apaixonado.
Enfim, quando as coisas em Portugal já estavam mais estabelecidas, ela voltou para a gente, para a casa que construí também para ela e que ela também construiu. Veio para o Porto quando tivemos condições de ser para ela porto, e ela porto para nós.
Eu sei que todos os tutores de cãezinhos dizem a mesma coisa, assim como todos os pais, mas a personalidade dela era realmente especial. É preciso conhecer um pug para entender isso plenamente.
Dois episódios, no mínimo, comprovam que a sedução dos olhinhos esbugalhados não pode ser subestimada.
O primeiro aconteceu há cerca de dez anos. Era um tempo atribulado, em que eu me desdobrava entre três universidades para dar aulas. Surgiu uma rara oportunidade de viagem no fim do ano e, antes de decidir aceitar (eu precisava muito daquele descanso), tinha de resolver algo muito importante: e a Canela?
Eu passaria uma semana fora e não havia família disponível para ficar com ela. Conversei então com os amigos do trabalho e acabei chegando a um arranjo completamente improvável: a minha chefe, coordenadora do curso de Jornalismo, prontamente se dispôs a cuidar da Canelinha. Ela não tinha pets em casa e estaria sozinha e tranquila no período. Eu poderia deixar o cachorro na casa dela pelo tempo necessário.
O que poderia dar errado?
Fiquei levemente tenso: e se a Canela destruir alguma coisa na casa da chefa? E se ela se comportar mal, latir, fazer suas necessidades no tapete da sala ou algo do tipo?
Conhecendo o temperamento dela, contudo, não me preocupei demasiadamente. Era mesmo um cãozinho encantador. Aceitei a gentil oferta e fui para a tal viagem — sinceramente não lembro para onde, como ou com quem. O que lembro é que, para o meu alívio, tudo correu muito bem. Obviamente, a chefa se afeiçoou ao cãozinho. Canela não havia destruído nada.
Ao contrário, Canela construíra alguma coisa. Assim era ela. Por onde passava, deixava uma marca — a marca de sua patinha fina e torta — de afeto. Uma pedra fundamental que, aos bem dispostos, bastava para construir pontes.
Para a minha total surpresa, em poucas semanas a minha chefe apareceu com Clarinha: a sua própria pug. Sim, bastou uma semana com Canela para ela se apaixonar e desejar um pug para chamar de seu.
Aconteceu algo parecido recentemente, em Portugal. Um casal de amigos passou quase um mês cuidando da Canela e decidiu levar adiante o velho sonho de ter um cãozinho. Desta vez, não um pug, mas um Rough Collie, o Batuta: figura supersimpática e amorosa. Logo ficou estabelecido que a Canela era madrinha do Batuta. Enquanto conviveram, a velha senhora aristocrática de olhos tristes ensinou, com amor firme, o batutinha a fazer xixi no tapete higiênico e a respeitar os limites da casa — coincidentemente, os limites que a Princesa estabelecera.
Era sempre engraçado ver aquele pug atarracado e minúsculo ocupar a cama imensa do Batuta, cinco vezes maior do que ela, que observava tudo respeitosamente, à distância.
Canela já estava velhinha, meio cega, meio surda, meio banguela.
Mas sua aura de venerável autoridade seguia inabalada.
No último ano, Canela se tornou uma espécie de esfinge doméstica. Condensava em seu corpo grisalho todo o mistério do apego.
A vitalidade da infância e da juventude — quando conseguia saltar e subir sozinha na cama e no sofá — dera vez a passos curtos e solenes. Não se deslocava pela casa sem necessidade. A vontade de passear na rua também diminuíra: de duas vezes por dia para uma para finalmente um arranjo “sob demanda”. Quando ela queria sair, falava. Eu escutava.
O ronco continuava a funcionar como o metrônomo da casa, marcando o ritmo de todos, mas também lentamente sugerindo que a música estava prestes a terminar.
As dificuldades foram crescendo. No último ano, decidido a dar a ela os melhores dias de sua vida — e o que é a vida senão um esforço para colecionar belas memórias? — eu cedia a todos os seus desejos. Dizem que o velho vira criança. Eu deixei que Canela, aos 14 anos e meio de idade, fosse criança. Aos poucos fui trocando a ração por comida natural. Passava horas na cozinha, nos fins de semana, para preparar as marmitinhas da Princesa. Frango, carne moída, batata, cenoura, frutas para a sobremesa, tudo o que ela amava. Nos fins de semana, churrasquinho. As vitaminas e remédio contra a alergia eram escondidos em nacos de banana — sua fruta favorita.
Se ela queria ir para a minha cama, ela vinha. Se queria colo no sofá, recebia. Nenhum espaço estava interditado.
Assim sua velhice foi avançando com elegância discreta. O rosto ia perdendo o vigor negro ao passo que o olhar ganhava um leve véu de névoa. Mas o afeto permaneceu intacto, talvez até mais nítido, mais íntimo, como se a finitude a tornasse mais próxima.
Mesmo nos últimos dias, quando dormia quase o tempo todo, ainda havia nela uma centelha de curiosidade, uma pequena alegria que se acendia ao som da minha voz ou do barulho da comida sendo preparada. O som da faca batendo contra a tábua de corte era suficiente para despertá-la imediatamente, embora ela já escutasse muito mal.
Se antes eu estava acostumado a acordar pelas seis horas da manhã com o tec tec tec das patinhas, no último ano vi que ela acordava mais tarde, com aquele bocejo longo que fazia parecer que o mundo começava junto com ela.
De certa forma, sim. Era isso mesmo. Mesmo dormindo dois terços do dia, ela despertava a casa para a vida.
No início deste mês, durante a madrugada, Canela acordou vomitando bastante. Não era algo inédito, imaginei que alguma comida havia feito mal ao seu estômago cada vez mais sensível. Limpei-a e a coloquei ao meu lado, na minha cama, para tranquiliza-la.
No dia seguinte, vimos que estava com mais dificuldade de respirar do que o normal. Fomos ao veterinário e as notícias não eram boas: um pulmão cheio de líquido difuso, um coração dilatado. A dificuldade de respiração a colocava em risco de vida: era preciso interná-la, oferecer oxigênio, medicá-la para acalmar a respiração ofegante, fazer todo tipo de exame para localizar a causa do problema. Havia apenas hipóteses.
Na noite de domingo, ligaram-me do hospital para dizer que ela estava bem. A respiração havia voltado ao normal, após três dias de internação, e ela estava de bom humor: brincou com os médicos durante a tarde.
Fiquei profundamente aliviado.
Antes de dormir, pensei: amanhã Canela volta para casa.
Amanhã a casa volta a ser casa.
Na madrugada, contudo, recebi outra ligação do hospital. Eram exatamente 4h40 da manhã. Antes de atender, eu já sabia do que se tratava. O veterinário confirmou as suspeitas.
Uma parada cardíaca. Todos os esforços possíveis para reanimá-la. Nada resultou.
Canela havia partido para o céu dos pugs. Faleceu pouco tempo depois do dia de São Francisco de Assis, o santo protetor dos animais e da natureza, minha mãe lembrou. Rezamos na certeza de que ele a receberia com uma grande festa, com churrasquinho e banana.
Um cão materializa um pedaço da alma do seu dono. Talvez por isso a gente se afeiçoe tanto: ele torna visível nosso estranho íntimo, uma constelação de possibilidades que poderíamos realizar, se tivéssemos a coragem e a inteligência dos animais.
É pena não termos.
Canela foi isso, uma alma visível, deitada ao meu lado, dia após dia, que respirava comigo e, de algum modo, respirava também por mim, sem se queixar da dificuldade, do fôlego curto. Até o fim.
Olho para as fotos dela, hoje, e penso na estranheza desse fenômeno que é ter um outro ser respirando (e roncando baixinho) dentro da gente, sem precisar ocupar espaço algum.
Ela conheceu minha tristeza e minha alegria. Estava ao meu lado nos períodos mais difíceis. Bastava que eu me demorasse demais no silêncio e lá vinha ela, apoiando o focinho quente na minha coxa, como quem diz: eu sei, mas vai passar. Às vezes, deitava-se sobre o meu pé — peso pequeno, mas suficiente para ancorar o corpo e o espírito. Âncora viva, feita de afeto.
No seu modo simples de existir, Canela cumpria aquilo que, para nós, humanos, é impossível: ser inteiramente presente. Vivia o real do encontro.
Hoje, a casa está cheia de desencontro. É uma casa estranha, espreitada por sombras oportunistas. No silêncio, às vezes me pego desviando o olhar, do nada ao nada, como quem espera vê-la surgir de repente, redonda e ofegante, cruzando o corredor para pedir comida ou colo. Uma ausência tão densa que se materializa.
Seu ronco ressoa em mim.
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Que homenagem linda! Tem um poema chamado Rainbow Bridge, sobre o céu dos cachorros, e pra mim a melhor parte é essa aqui, algo como “Mas chega o dia em que um deles para de brincar, olha à distância, e corre o mais rápido que pode. Você foi visto, e quando vocês se reencontram, se abraçam em uma alegria sem fim.” Canela está em paz, sem dor, vivendo sua plenitude, cercada de amigos, eternamente grata por ter tido um pai como você
Meus sentimentos! 🤍